Neuralgia do Trigêmeo


O que é a Neuralgia do Trigêmeo e por que ela provoca uma dor tão incapacitante

A neuralgia do trigêmeo é uma condição neurológica em que o nervo trigêmeo, que leva sensibilidade para toda a face, passa a funcionar de forma anormal. Ele se torna hiperativo, enviando sinais de dor intensa ao cérebro sem motivo real. Como se o nervo estivesse sofrendo um “curto-circuito”, gerando crises de dor súbita.

É considerada uma das dores mais severas da medicina porque envolve um nervo extremamente sensível, responsável por praticamente todas as sensações do rosto.


O paciente descreve a dor como:

  • Descargas elétricas
  • Pontadas muito fortes
  • Choques que paralisam
  • Dor súbita como “facada” no rosto
  • Queimação profunda


O mais angustiante é que pequenos estímulos simples desencadeiam a crise: falar, mastigar, sorrir, lavar o rosto, vento frio, a água do banho e até colocar a cabeça no travesseiro.

Com o tempo, muitos pacientes passam a evitar comer, falar ou socializar com medo de sentir dor novamente, o que impacta trabalho, alimentação, sono e saúde emocional.

Sintomas típicos e como diferenciar de outras dores faciais


A neuralgia do trigêmeo tem um padrão muito próprio, e reconhecer esse padrão ajuda o paciente a não perder tempo com tratamentos inadequados.


Os sinais mais característicos incluem:

  • Crises de dor abrupta e extremamente intensa
  • Episódios que duram segundos, mas se repetem muitas vezes ao dia
  • Dor em apenas um lado da face
  • Áreas de “gatilho”, que disparam a dor ao toque
  • Incapacidade de mastigar ou escovar os dentes durante as crises
  • Períodos de alívio entre os episódios, que tendem a diminuir com o tempo


Alguns pacientes desenvolvem um tipo “misto”, com dor constante entre as crises fortes.

Diferente de sinusite, problemas dentários ou dor muscular, a neuralgia do trigêmeo não melhora com analgésicos comuns e piora progressivamente quando não tratada. É uma dor que exige diagnóstico especializado porque pode ter diferentes causas e tratamentos totalmente distintos.

Como o diagnóstico é feito e por que a investigação precisa ser muito detalhada

O primeiro passo é entender o padrão da dor: onde ela começa, como ela percorre o rosto, o que desencadeia a crise e como ela evoluiu ao longo do tempo.


A avaliação inclui:

  • Exame neurológico completo
  • Mapeamento de gatilhos específicos
  • Testes de sensibilidade da face
  • Avaliação de músculos e articulações da mandíbula
  • Histórico odontológico e cirúrgico


Em muitos casos é necessário uma avaliação por imagem para estudar o nervo, utilizando uma ressonância magnética de crânio de alta resolução (sequência FIEST), essencial para investigar causas como:

  • Compressão do nervo por vasos sanguíneos
  • Vasos que comprimem a raiz do trigêmeo
  • Tumores benignos na região
  • Inflamações crônicas
  • Esclerose múltipla
  • Alterações estruturais do canal por onde o nervo passa


A neuralgia do trigêmeo tem subtipos, e cada um responde melhor a um tratamento específico. Um diagnóstico preciso evita meses ou anos de tentativas falhas com remédios ineficazes, e o impacto negativo da doença na vida do paciente.

Opções de tratamento clínico e avançado

A boa notícia é que existem tratamentos eficazes, inclusive para casos graves. Eles são divididos em:

  • Medicações específicas

    São diferentes dos analgésicos comuns. Atuam diretamente na condução elétrica do nervo, modulando o curto-circuito, e controlando a dor.


    Podem reduzir bastante as crises, mas nem sempre são suficientes em fases avançadas.

  • Bloqueios do nervo trigêmeo

    Aplicações feitas diretamente na região do nervo para:

    • Reduzir inflamação
    • Modificar temporariamente a condução da dor
    • Quebrar ciclos de crise

    São úteis em fases iniciais ou em momentos de dor intensa.

  • Radiofrequência do nervo por técnica percutânea (minimamente invasiva)

    Procedimento minimamente invasivo que modula seletivamente as fibras responsáveis pela dor. Oferece alívio prolongado.

  • Compressão com balão por técnica percutânea (minimamente invasiva)

    Técnica percutânea minimamente invasiva de compressão controlada do nervo, para atingir as fibras responsáveis pela dor e controlar os sintomas. 

  • Descompressão microvascular

    Cirurgia indicada quando exames demonstram que um vaso sanguíneo está comprimindo o nervo trigêmeo. É um dos poucos procedimento que atua diretamente sobre uma das causas da neuralgia, podendo oferecer alívio duradouro e, em muitos casos, definitivo.

  • Radiocirurgia

    A radiocirurgia é um tratamento não invasivo, realizado sem cortes, que utiliza radiação altamente precisa para agir sobre o nervo trigêmeo. É uma alternativa para casos bem específicos, especialmente indicada para pacientes que não têm indicação cirúrgica.

Cada tratamento é escolhido de acordo com a causa exata da neuralgia, evolução das crises, idade e resposta prévia às medicações.

Procedimentos minimamente invasivos: como funcionam e o que esperar

Os procedimentos minimamente invasivos para neuralgia do trigêmeo são planejados para serem precisos, seguros e com recuperação rápida.


Eles são realizados com anestesia local ou leve sedação, utilizando agulhas finas guiadas por imagem. Precisam ser realizados em regime de hospital-dia, com alta programada para o mesmo dia. Esse protocolo trás mais conforto e segurança para o paciente.


O propósito é atingir o ponto exato onde o nervo está hiperativo e modulá-lo para reduzir as crises.


Resultados esperados:

  • Redução significativa da dor
  • Menos crises ao longo do dia
  • Menor necessidade de remédios
  • Mais segurança para comer, falar e tocar o rosto
  • Retorno rápido às atividades


Em muitos casos, o alívio é imediato. Em outros, a melhora ocorre ao longo de dias conforme o nervo estabiliza.



Esses procedimentos são uma grande oportunidade para quem já convive há meses ou anos com dor e não encontrou resposta adequada com remédios.

Quando procurar ajuda e como o tratamento muda a vida do paciente

A neuralgia do trigêmeo não deve ser normalizada. Ela é progressiva, limita atividades básicas e tem impacto profundo na saúde emocional.


Procure avaliação especializada quando:

  • A dor facial parece um choque elétrico
  • A dor surge ao mastigar, falar, tocar o rosto ou escovar os dentes
  • O padrão de dor está piorando
  • Os medicamentos não fazem mais efeito
  • A crise está interferindo em alimentação, sono ou higiene
  • Você desenvolveu medo de desencadear a dor


Quando o tratamento certo é aplicado, a maioria dos  pacientes conseguem:

  • Voltar a se alimentar normalmente
  • Recuperar noites de sono
  • Reduzir drasticamente o uso de remédios
  • Retomar a rotina com segurança
  • Passar longos períodos sem dor


A neuralgia do trigêmeo é grave, mas existe tratamento eficaz, inclusive para casos complexos.

Outras neuralgias cranianas menos comuns

Além da neuralgia do trigêmeo, outros nervos do crânio também podem apresentar um funcionamento anormal, semelhante a um “curto-circuito”, gerando dor ou movimentos involuntários, que muitas vezes podem ser CONFUNDIDOS com neuralgia do trigêmeo. Embora sejam menos frequentes, essas condições podem ser tratadas com técnicas minimamente invasivas, com bons resultados quando bem indicadas.

  • Neuralgia do nervo glossofaríngeo

    É uma condição rara que provoca crises de dor intensa na garganta, base da língua, amígdala, ouvido ou região do pescoço. A dor costuma ser súbita, em choque, e pode ser desencadeada ao engolir, falar, bocejar ou mastigar. Quando o tratamento medicamentoso não é suficiente, procedimentos minimamente invasivos podem ajudar a controlar os sintomas.

  • Hemiespasmo Facial

    Caracteriza-se por contrações involuntárias e repetitivas dos músculos de um lado do rosto, geralmente começando ao redor dos olhos e podendo se espalhar para a face. Apesar de não ser uma dor propriamente dita, causa desconforto importante, impacto estético e social. Em muitos casos, está relacionado à irritação ou compressão do nervo facial e pode ser tratado com toxina botulínica ou procedimentos intervencionistas, conforme a gravidade.


    Assim como na neuralgia do trigêmeo, o diagnóstico correto e a avaliação especializada precoce são fundamentais para definir a melhor estratégia de tratamento e preservar a qualidade de vida do paciente.

Sobre o médico

Dr. Anselmo Boa Sorte

O Dr. Anselmo Boa Sorte é neurocirurgião funcional especializado em neuromodulação, dor crônica, dor neuropática e transtornos do movimento , com atuação focada em tratamentos avançados que devolvem autonomia e qualidade de vida aos pacientes.


Formado pela 
UFBA, onde recebeu o Prêmio Manoel Vitorino como melhor aluno do curso de Medicina, realizou residência em Neurocirurgia no IAMSPE e especializações em Dor e Neurocirurgia Funcional para Parkinson e Distonias pelo Hospital das Clínicas da USP (HC-FMUSP), um dos principais centros de referência em neurociência  do país.


É pós-graduado em neuromodulação invasiva pela 
International Neuromodulation Society e membro das principais sociedades nacionais e internacionais da área. Atua no Instituto Sentir e nos principais hospitais de Salvador-Bahia, utilizando tecnologias modernas como Estimulação Cerebral Profunda (DBS), Estimulação Medular, intervenções minimamente invasivas e procedimentos de alta precisão para dor refratária.


Atualmente é consultor em neuromodulação, com viagens, cirurgias e cursos realizados por todo país, principalmente na região nordeste.


Combinando ciência, tecnologia e cuidado humano, oferece uma abordagem personalizada, segura e ética para pacientes com Parkinson, distonias, tremores e dores crônicas de difícil controle.