Cirurgia para Epilepsia
O que é uma crise convulsiva?
A crise convulsiva acontece quando há uma descarga elétrica anormal e súbita no cérebro, que interfere temporariamente no seu funcionamento. Durante a crise, a pessoa pode apresentar perda de consciência, movimentos involuntários, rigidez muscular, tremores, alterações da fala, da visão ou do comportamento.
Nem toda crise convulsiva é igual. Algumas são mais visíveis, com movimentos intensos, enquanto outras podem se manifestar apenas como ausências, confusão, sensações estranhas ou movimentos automáticos. Uma crise isolada pode acontecer por diferentes motivos e não significa necessariamente epilepsia.
Qual a diferença entre crise convulsiva e epilepsia?
A crise convulsiva é um evento, ou seja, um episódio pontual. Já a epilepsia é uma doença neurológica crônica, caracterizada pela tendência a apresentar crises repetidas.
Em resumo:
- Uma pessoa pode ter uma crise convulsiva isolada e nunca mais apresentar outra.
- A epilepsia é doença neurológica, diagnosticada quando há recorrência das crises ou risco elevado de novas crises.
Por isso, após uma crise convulsiva, é fundamental uma avaliação neurológica adequada para identificar a causa e definir o acompanhamento correto.
O que é epilepsia refratária e por que alguns pacientes precisam de cirurgia?
A epilepsia é considerada refratária quando o paciente continua tendo crises mesmo usando dois ou mais medicamentos antiepilépticos adequados, em doses corretamente ajustadas. Isso acontece em aproximadamente 30% dos casos e indica que o cérebro possui um foco de atividade elétrica descontrolada que não responde bem aos remédios.
As crises repetidas prejudicam memória, sono, aprendizagem, concentração e até a autoestima. Em casos mais graves, aumentam o risco de quedas, acidentes, internações e impacto emocional. Quando os medicamentos não funcionam, a cirurgia deixa de ser “última opção” e passa a ser uma estratégia eficaz para reduzir significativamente ou até eliminar as crises, permitindo que o paciente retome a autonomia e a qualidade de vida.
A cirurgia para epilepsia é indicada após uma avaliação criteriosa que confirma que as crises têm origem em uma área específica do cérebro, ou que existem alternativas de neuromodulação eficaz para reduzir a atividade epileptogênica.
Tipos de epilepsia e sinais que sugerem indicação cirúrgica
Nem toda epilepsia é igual. Existem dezenas de tipos diferentes, mas algumas condições respondem melhor ao tratamento cirúrgico.
Epilepsia focal (parcial)
É a mais candidata à cirurgia, pois as crises começam em uma região específica do cérebro. Pode causar movimentos involuntários, sensação estranha no estômago, alterações de fala, desorientação ou perda de consciência.
Epilepsia de lobo temporal
Uma das mais comuns. Pode causar lapsos de memória, comportamentos automáticos, medo súbito, déjà-vu ou aura intensa antes da crise. É uma das epilepsias com maior taxa de sucesso cirúrgico, quando bem indicada.
Epilepsia por lesões estruturais
Tumores benignos, cicatrizes pós-trauma, malformações congênitas e sequelas de AVC podem gerar crises focais resistentes à medicação.
Epilepsia generalizada com foco identificado
Mesmo crises generalizadas podem ter um ponto de origem, e nesses casos a cirurgia pode ajudar.
Epilepsia refratária sem foco cirúrgico definido
Quando não é possível identificar uma área única do cérebro para cirurgia, o neuromodulação do nervo vago (VNS) ou DBS pode ajudar a reduzir a frequência e a intensidade das crises.
Epilepsias generalizadas refratárias
Incluindo síndromes epilépticas mais difusas, nas quais as crises envolvem múltiplas áreas do cérebro.
Síndrome de Lennox-Gastaut
Forma grave de epilepsia, geralmente iniciada na infância, associada a crises frequentes e de difícil controle. A técnica de VNS (estimulador de nervo vago) pode reduzir crises e melhorar a qualidade de vida.
Epilepsia multifocal
Quando existem múltiplos focos de crise, tornando a cirurgia tradicional inviável.
Sinais de alerta que sugerem indicação cirúrgica:
- Crises frequentes apesar de medicações.
- Quedas, desmaios ou convulsões com risco de acidentes.
- Comprometimento da memória e concentração.
- Crises noturnas que atrapalham a rotina.
- Efeitos colaterais importantes dos remédios.
- Desempenho escolar ou profissional prejudicado.
Quando esses sinais aparecem, é hora de reavaliar o tratamentos.
Como funciona a avaliação pré-cirúrgica em epilepsia
A decisão cirúrgica só é tomada após uma investigação completa, que identifica onde as crises começam e como se espalham pelo cérebro.
Essa avaliação é extremamente precisa e envolve:
Vídeo-EEG prolongado
Monitoramento intensivo que registra crises ao vivo, mapeando início e propagação da atividade elétrica anormal.
Ressonância magnética de alta resolução
Mostra alterações estruturais como cicatrizes, displasias, tumores benignos ou lesões ocultas.
PET-CT ou SPECT cerebral
Avaliam áreas com metabolismo reduzido ou hiperatividade.
Testes neuropsicológicos
Medem memória, atenção, linguagem e habilidades cognitivas.
Mapeamento funcional
Identifica funções essenciais próximas ao foco epiléptico, garantindo segurança.
Estudo invasivo (quando necessário)
Eletrodos intracranianos ajudam a localizar com precisão milimétrica o foco gerador.
Esse processo define se a cirurgia é possível, se será curativa ou se a melhor opção é neuromodulação para reduzir crises.
Técnicas cirúrgicas utilizadas no tratamento da epilepsia
Existem diferentes abordagens, cada uma indicada para um tipo de epilepsia. Entre as mais utilizadas:
Ressecção do foco epiléptico
Remove a área do cérebro onde as crises começam.
É uma das técnicas com maior taxa de controle ou cura.
Lobectomia temporal
Indicada para epilepsia de lobo temporal mesial. Tem excelentes resultados clínicos.
Lesionectomia
Remove pequenas lesões que geram descargas elétricas, como tumores benignos ou cicatrizes.
Calozotomia
Indicada para epilepsias graves com crises atônicas ou quedas repentinas, reduzindo a propagação das crises.
Estimulação Cerebral Profunda (DBS)
Modula redes cerebrais envolvidas na epilepsia, reduzindo frequência e intensidade das crises.
Estimulação do Nervo Vago (VNS)
A estimulação do nervo vago (VNS) é um tratamento cirúrgico seguro e bem estabelecido, indicado principalmente para pacientes com epilepsia refratária que não apresentam um foco cirúrgico único e bem definido.
O procedimento não envolve abertura do crânio. A cirurgia é realizada por pequenas incisões no pescoço e no tórax, onde é implantado um dispositivo semelhante a um marcapasso, conectado ao nervo vago. Esse aparelho envia estímulos elétricos leves e programados, que ajudam a regular a atividade elétrica do cérebro, reduzindo a frequência e a intensidade das crises.
Trata-se de uma cirurgia minimamente invasiva, com baixo risco de complicações e recuperação rápida. A maioria dos pacientes recebe alta em curto período e consegue retomar as atividades do dia a dia gradualmente. Além da redução das crises, muitos pacientes relatam melhora da qualidade de vida, do bem-estar e da segurança no cotidiano.
A indicação do VNS é sempre feita após uma avaliação especializada, considerando o tipo de epilepsia, a resposta aos medicamentos e as características individuais de cada paciente.
O objetivo é sempre diminuir as crises com máxima segurança e preservar funções importantes como memória, linguagem e movimento.
Como é a cirurgia na prática e o que o paciente deve esperar no pós-operatório
A cirurgia para epilepsia não é um procedimento único. Existem diferentes técnicas, que variam conforme o tipo de epilepsia, a origem das crises, os exames realizados e o perfil de cada paciente. Por isso, a avaliação e o planejamento devem ser feitos por uma equipe experiente, com discussão detalhada de todas as opções disponíveis.
Antes da cirurgia, todo o procedimento é minuciosamente planejado com base em exames de imagem, estudos elétricos do cérebro e avaliações clínicas. O objetivo é tratar a área responsável pelas crises, preservando ao máximo as funções cerebrais importantes.
Na maioria dos casos, a cirurgia é realizada com anestesia geral. Em técnicas menos invasivas, como implante de eletrodos ou procedimentos de neuromodulação, o tempo cirúrgico e a permanência hospitalar costumam ser menores quando comparados às cirurgias de ressecção.
O que o paciente pode esperar no pós-operatório
De forma geral, as expectativas incluem:
- Hospitalização breve, que costuma variar entre 2 e 4 dias, dependendo da técnica utilizada
- Dor leve ou moderada no local da incisão, geralmente bem controlada com medicações simples
- Retorno gradual às atividades do dia a dia, ao longo das semanas seguintes
- Acompanhamento médico próximo, especialmente nos primeiros meses após a cirurgia
Nos primeiros momentos após a cirurgia, o paciente continua utilizando as medicações antiepilépticas. Com a estabilização clínica e o bom controle das crises, muitos pacientes conseguem reduzir gradualmente as doses, sempre com orientação médica.
Em casos específicos, como cirurgias do lobo temporal ou ressecções de lesões bem definidas, as chances de redução expressiva ou até eliminação das crises são mais altas.
Durante a recuperação, a equipe acompanha de perto aspectos como:
- Memória
- Atenção e concentração
- Humor
- Adaptação à nova rotina
Esse acompanhamento é fundamental para garantir segurança, bons resultados e melhora real da qualidade de vida.Cada paciente tem uma trajetória única, e o sucesso da cirurgia depende de uma indicação correta, de um planejamento cuidadoso e de um segmento especializado.
Cirurgia de Implante do Estimulador do Nervo Vago (VGS): como é na prática e o que esperar do pós-operatório
A cirurgia de implante do Estimulador do Nervo Vago (VNS) é um procedimento seguro e minimamente invasivo, que não envolve abertura do crânio.
O procedimento é realizado com anestesia geral e consiste em pequenas incisões no pescoço e no tórax, onde é implantado um dispositivo semelhante a um marcapasso, conectado ao nervo vago. A cirurgia costuma durar cerca de 1 a 2 horas.
Após o procedimento, o paciente permanece em observação e, na maioria dos casos, recebe alta em 1 a 2 dias. A dor costuma ser leve, localizada nas áreas das incisões, e geralmente é bem controlada com medicações simples.
Nos primeiros dias, recomenda-se repouso relativo, com retorno gradual às atividades do dia a dia. O dispositivo não começa a funcionar imediatamente: ele é ativado e ajustado de forma progressiva nas consultas de acompanhamento, para garantir eficácia e conforto.
É importante destacar que o paciente continua utilizando as medicações antiepilépticas inicialmente. Com o tempo e a boa resposta ao tratamento, alguns pacientes podem reduzir a frequência ou a dose dos medicamentos, sempre com orientação médica.
O acompanhamento regular é essencial para ajustar o estimulador, monitorar a resposta clínica e garantir segurança, controle das crises e melhora da qualidade de vida.
Cirurgia de implante do Estimulador Cerebral Profundo (DBS) para epilepsia: como é na prática e o que esperar no pós-operatório
A cirurgia de implante do Estimulador Cerebral Profundo (DBS) é uma opção de tratamento para alguns casos de epilepsia refratária, especialmente quando outras abordagens não foram suficientes para controlar as crises.
O procedimento é realizado em ambiente hospitalar, com planejamento detalhado baseado em exames de imagem e estudos neurológicos. A cirurgia envolve o implante de eletrodos em áreas específicas do cérebro, conectados a um gerador de estímulos, semelhante a um marcapasso, implantado geralmente na região do tórax. Dependendo da técnica e do perfil do paciente, a cirurgia pode ser feita com anestesia geral ou em etapas, sempre priorizando segurança e conforto.
Após o procedimento, o paciente permanece em observação hospitalar e, na maioria dos casos, recebe alta em poucos dias. A dor no pós-operatório costuma ser leve a moderada, localizada nos pontos de incisão, e é controlada com medicações simples.
O estimulador não começa a funcionar imediatamente. Ele é ativado e ajustado de forma gradual nas consultas de acompanhamento, para encontrar os parâmetros ideais de estimulação. Durante esse período, o paciente continua utilizando as medicações antiepilépticas.
A recuperação inclui retorno progressivo às atividades do dia a dia, além de acompanhamento regular para avaliar a resposta ao tratamento, possíveis ajustes do dispositivo e impacto na frequência das crises, na qualidade de vida e no bem-estar geral.
Como em todo tratamento avançado da epilepsia, a indicação do DBS é feita após avaliação criteriosa e individualizada, com o objetivo de oferecer maior controle das crises, segurança e melhora funcional a longo prazo.
Resultados esperados, qualidade de vida e quando buscar avaliação especializada
A cirurgia para epilepsia oferece benefícios importantes:
- Redução significativa da frequência das crises.
- Eliminação total das crises em diversos casos.
- Menor risco de quedas e acidentes.
- Melhora da memória e da concentração após estabilização.
- Redução da dependência de medicamentos.
- Retomada da vida social, trabalho e estudos com mais segurança.
- Maior autonomia e autoestima.
É hora de buscar avaliação quando:
- As crises continuam mesmo com várias medicações.
- Há limitações no estudo ou trabalho.
- Há risco de acidentes durante convulsões.
- Os efeitos colaterais dos remédios estão prejudicando a rotina.
- A epilepsia está afetando sono, humor, memória ou qualidade de vida.
A cirurgia não é indicada para todos os casos, mas quando existe um foco bem definido ou possibilidade de neuromodulação, o potencial de transformar a vida do paciente é enorme.
Sobre o médico
Dr. Anselmo Boa Sorte
O Dr. Anselmo Boa Sorte é neurocirurgião funcional especializado em neuromodulação, dor crônica, dor neuropática e transtornos do movimento , com atuação focada em tratamentos avançados que devolvem autonomia e qualidade de vida aos pacientes.
Formado pela UFBA, onde recebeu o Prêmio Manoel Vitorino como melhor aluno do curso de Medicina, realizou residência em Neurocirurgia no IAMSPE e especializações em Dor e Neurocirurgia Funcional para Parkinson e Distonias pelo Hospital das Clínicas da USP (HC-FMUSP), um dos principais centros de referência em neurociência do país.
É pós-graduado em neuromodulação invasiva pela International Neuromodulation Society e membro das principais sociedades nacionais e internacionais da área. Atua no Instituto Sentir e nos principais hospitais de Salvador-Bahia, utilizando tecnologias modernas como Estimulação Cerebral Profunda (DBS), Estimulação Medular, intervenções minimamente invasivas e procedimentos de alta precisão para dor refratária.
Atualmente é consultor em neuromodulação, com viagens, cirurgias e cursos realizados por todo país, principalmente na região nordeste.
Combinando ciência, tecnologia e cuidado humano, oferece uma abordagem personalizada, segura e ética para pacientes com Parkinson, distonias, tremores e dores crônicas de difícil controle.

